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A verdade, meus caros…

A verdade é que ela era meio covarde, entendem? Não sabia lidar com dores imensuráveis, corações partidos, vidas acabadas. E por isso evitava. Evitava um olhar, uma visita, um abraço. Evitava para não doer mais no final, para que a única coisa que sentisse fosse a culpa, por ter evitado tanto e não ter aproveitado nada. Nem um olhar, uma visita, um abraço. Nada.

O que restou da ignorância? Livros. Claro, livros que não eram tanto de seu gosto, mas que guardou como fossem seus favoritos. Livros que traziam à memória uma vida que foi desgastada por um tumor do tamanho de uma laranja. Livros que a lembravam da culpa, da ignorância, da saudade.

Caminhava.

       Caminhava. Caminhava como quem não sabia de muita coisa - quase nada. Caminhava como quem apenas andava, sem compromissos, afazeres, sem deveres. Caminhava como caminha o livre, o pobre, sempre tão coitado. “Porque quando não temos nada é que temos liberdade para fazer tudo”.

        Era uma poeta. E como todo poeta que se preze, tinha liberdade dentro de si: liberdade de expressão, vida livre de conceitos, preconceitos, sujeitos, defeitos. E foi pensando nisso que, como num clique, assim, tão de repente, uma imagem veio em sua cabeça. Um casal se beijava na praça ao lado; o cachorro molhado passava, magro, faminto, enfastiado. “Teus beijos que me molham sempre à disposição dos meus…”, pensou. E ficou com isso na cabeça, imagem, frase; quase um livro foi escrito a partir de uma simples frase. Agora só tinha um obstáculo: como se lembrar? Como não esquecer? Onde anotar? Não tinha lugar! E como quem procura por alguém, procurava por um papel, simples, caneta, qualquer coisa: não achou. Ainda faltava um ônibus e uma caminhada até chegar em sua casa e, finalmente poder anotar em algum lugar. Pensou novamente. E o celular? Sem bateria. Estava sozinha, sem ninguém para lhe emprestar um algo qualquer. Talvez pensasse que seria muita pretensão de alguém querer anotar tão loucamente uma simples frase. Mas poetas são assim, sempre querem anotar tudo que lhes vêm à cabeça, mesmo que seja algo medíocre. E tinha certo charme, aquela frase; uma falta de sentido que, ainda assim, lhe dava completo sentido. “Teus beijos que me molham sempre à disposição dos meus…”

        Enquanto pensava continuava andando, concentrada na frase que acabara de criar. Aceitou o desafio de tê-la em sua cabeça até chegar em casa, pois não perderia essa chance, ainda que fosse uma frase medíocre - o que, acreditava a jovem, não era. “Teus beijos que me molham sempre à disposição dos meus…”

        Desde então tudo, de alguma forma, tornou-se um filme em fast foward, pois precisava chegar em casa rápido e dessa forma, caminhou mais rápido, como quem sabia de algo - muito. Caminhou como quem tinha compromissos, afazeres, deveres. Caminhou menos livre - porém não menos rápido.

        Entrou no ônibus. O motorista a observou. Os olhos da moça estavam esbugalhados, quase assustados. Repetia algo, sussurrando. “Teus beijos que me molham sempre à disposição dos meus…” Deu o dinheiro, recebeu o troco. De repente, um freio abrupto. Teus beijos? Quase caiu. Molham quem? Uma senhora, gentilmente, a ajudou. Com um sorriso, os cabelos desgrenhados, ar de quem havia descoberto algo, ela respondeu: Me molham! E se sentou na cadeira do corredor.

        “Teus beijos que me molham sempre…” Licença? Alguém queria se sentar na cadeira vazia ao lado. À disposição dos meus?, ela disse. Obrigado, sentou-se o homem. E continuava a poeta. “Teus beijos que me molham sempre à disposição dos meus…”

        Olhou pela janela, estava chegando. Levantou-se, deu o sinal e esperou parar. Enquanto isso, repetia para si mesma que os teus beijos, que me molham, estão sempre à disposição dos meus. E desceu.

        Andava rápido, quase correndo. Em seu rosto tinha uma expressão de firmeza, estava tentando concentrar-se em algo. Para um estranho poderia parecer que um camarão estragado havia lhe caído mal. Mas a poeta estava concentrada demais para se importar, ao menos perceber. “Teus beijos que me molham sempre à disposição dos meus…” Tropeçou. TEUS BEIJOS!, gritou. Que me molham sempre à disposição dos meus…, choramingou logo após.

        Chegou em casa. Não falou com ninguém, correu para seu quarto como alguém que comeu um camarão estragado correria para o banheiro. Revistou por todos os lados, “Teus beijos…”, jogou roupa, “que me molham…”, procurou uma caneta. “Sempre…” Um simples caneta! “Teus beijos que me molham sempre à disposição dos meus…” Achou!

        Pegou o caderno mais próximo e escreveu, apressada: “Teus beijos que me molham sempre à disposição dos meus…” De repente, a descarga. Um fundo vitorioso, aplausos! Ufa. Teus beijos… Teus beijos…

       Aquela noite a poeta dormiu como alguém que acabara de sair do banheiro após comer um camarão estragado sairia: livre de conceitos, preconceitos, sujeitos. E sonhou que o cachorro magro e molhado beijava o casal da praça ao lado. 
 
      Teus beijos que me molham sempre à disposição dos meus…

Their meeting.

      Uma coisa engraçada sobre coincidências é que elas acontecem quando você menos espera e em dias tão triviais quanto uma segunda-feira. Ou um domingo. Quero dizer, lá está você, fazendo suas obrigações, vivendo sua vidinha normal – ou medíocre, até, se me permite ressaltar – e, de repente, tão rápido como uma tentativa frustrada de matar aquele mosquito irritante, o tão aguardado destino vem de encontro a sua pessoa. Mas o melhor de tudo, é que existe uma singularidade particular em cada dia da semana e é dessa singularidade que as coincidências – ou o destino, se preferir – vivem.

            9 de Novembro era um dia trivial, tão comum quanto os outros. Ela trabalhava no cafezinho de sempre, ganhando o dinheiro contado para pagar o apartamento. Estudava numa das melhores faculdades do país, mas disso cuidava o pai. Ainda precisava dele. Fazia dois anos que tinha se mudado para aquela grande e maravilhosa cidade, cheia de pessoas desconhecidas e lugares magníficos. Tinha alguns poucos amigos que fazia questão de manter por perto, mas no trabalho, apenas aquela chefe de cabelos cacheados num penteado que parecia ter saído de um seriado dos anos 90. O resto dos colegas estava ali para fazer o mesmo que ela: trabalhar - e reclamar do banheiro dos funcionários, mas isso é outra história.

            Preparava um capuccino para uma jovem que aparentava estar com o namorado, quando o destino lhe bateu a porta. Ela sorria, até. Até ver aquele rosto inesquecível, marcado em sua mente como brasa. Um rosto tão singular quanto os dias da semana. Conseguiu entregar o pedido para a moça, que a olhou de um jeito engraçado devido a curiosa expressão da garçonete que lhe servia.

            Era ele, tinha certeza. Os olhos azuis e brilhantes, o sorriso torto com os dentes perfeitos - exceto por aquela minúscula separação entre os dois da frente. O charme. A barba, do mesmo jeito que estava há quatro anos antes: por fazer. Pela primeira vez o vira sem o gorro, os cabelos, para sua surpresa, eram bagunçados e pareciam não ter sido arrumados há um tempo - o que só aumentava o já mencionado charme. Pôde ver também um pouco mais de sua pele branca, pois já não usava os dois casacos e, agora, bastava apenas um, o frio já não era tanto.

            De repente, aquela quinta feira tinha deixado de ser apenas “o dia anterior à sexta”; de repente, a vida fez um pouco mais de sentido. Se perguntou se não era um presente de aniversário Divino,  já que ela estava a apenas 16 dias de completar 20 anos. Ironicamente, era essa a idade que ele tinha quando eles se viram pela primeira vez. Ela estava com 16. Coincidência? Não, esse tipo de coisa já está bem além do limite de coincidência. Quero dizer, qual é a real probabilidade disso acontecer? 6 bilhões de habitantes no mundo, milhões de quilômetros entre um país e outro, milhares de lanchonetes como aquela na cidade. E ele veio parar justamente no pequeno café em que a nossa protagonista trabalha.

            Acordou de seus devaneios assim que uma colega a avisou que estava parada no mesmo lugar há 10 minutos e que isso estava começando a assustar os clientes. Disse também que o senhor da mesa X pediu um café normal. Não, “o senhor da mesa X” não era nosso mocinho, era apenas um velho barbudo com um caderno na mesa e uma caneta na mão, riscando e refazendo a mesma frase inúmeras vezes. Um escritor fracassado, provavelmente. Teve a certeza da dedução ao entregar o café para o senhor e ler a última frase, que ainda não estava rabiscada: “Os dias fracassados de hoje são a conquista do amanhã.”

            Ela não sabia o que iria fazer a seguir. Ela não sabia se seria certo falar com ele. Ela não sabia nem o que perguntaria à ele! Talvez fosse sua própria culpa, quero dizer, havia perdido as contas de quantas vezes imaginou esse momento, esse tão esperado momento. Infelizmente, nunca foi muito além do encontro em si. Nunca pensou no que falaria, com que assunto introduziria a conversa. O que se diz para alguém que você encontrou duas vezes numa cidade metropolitana do exterior e agora, depois de quatro anos, estava ali, há apenas dois metros de distância, aproveitando o quiche de frango com um café com leite?“Mais açúcar?”

            As pessoas falam para agirmos normais quando esse tipo de coisa acontece, certo? Se é que esse tipo de coisa acontece. Então, acredito que não haja frase mais normal do que “mais açúcar?”, ainda mais quando se trata de um café. Mas não seria tão normal assim se a garçonete aqui narrada já soubesse que havia um pote de açúcar na mesa do mocinho - pois teria sido a própria a botar o pote na bandeja de sua colega -  e que ele, na verdade, não precisava de açúcar nenhum. Poderia também dizer a mesma coisa que ele disse quando se viram pela segunda vez: “Eu estou te reconhecendo!”, ele gritava, “É a menina do metrô!”. Se bem que isso ficaria um pouco antiquado, afinal, já havia sido usado quatro anos antes. Mas…

            O que ela realmente queria? Apenas parar o tempo e o observar mais um pouco, talvez formular diálogos entre os dois em sua cabeça, viver mais da expectativa. Não queria se decepcionar, pois ela sabia que os romances eram muito mais bonitos em literatura e as pessoas, muito mais formidáveis na imaginação. Ela só não sabia até que ponto queria viver dessa fantasia. Se queria continuar vivendo da fantasia. Talvez fosse um pouco covarde.

            Por fim, se lembrou do que havia prometido a si mesma no encontro anterior àquele. Disse que se arriscaria em cada chance que lhe fosse dada. E daí que ele acabasse por ser tão normal quanto um pedaço de batata? Depois de todas essas resoluções sobre destino, coincidências e probabilidades, devia haver um motivo pelo qual ele estava ali. Tudo o que sabia era que não iria deixar aquela chance passar.

            E foi andando, com o coração batendo mais forte a cada passo, em direção à mesa dele. “Isso pode mudar minha vida”, pensou. Ele estava de costas para ela, portanto, não conseguia ver sua expressão, não conseguia sequer vê-la. Cutucou seu ombro esquerdo e esperou até que ele se virasse.

            “Oi. Você se lembra de mim?” foi o que ela, enfim, disse, com um sorriso envergonhado. E viu, naqueles olhos azuis e brilhantes, um misto de perplexidade e alegria. Um sorriso se abriu.