<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" version="2.0"><channel><atom:link rel="hub" href="http://tumblr.superfeedr.com/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"/><description>idealizando realidades, descrevendo sonhos, criando histórias.</description><title>inefável utopia</title><generator>Tumblr (3.0; @thepiemakerwords)</generator><link>http://thepiemakerwords.tumblr.com/</link><item><title>Leio seus textos quando sinto tua falta. :/</title><description>&lt;p&gt;ô sua linda &lt;3 pelo menos alguém lê né auehauehuaehuea&lt;/p&gt;</description><link>http://thepiemakerwords.tumblr.com/post/23862431034</link><guid>http://thepiemakerwords.tumblr.com/post/23862431034</guid><pubDate>Sun, 27 May 2012 11:37:33 -0300</pubDate></item><item><title>Versos ao inverso</title><description>&lt;p&gt;&lt;p class="p1"&gt;Queria conversar por um instante&lt;/p&gt;
&lt;p class="p1"&gt;Gritar num alto falante&lt;/p&gt;
&lt;p class="p1"&gt;Ouvir a conversa de um elefante&lt;/p&gt;
&lt;p class="p1"&gt;Tratar de assuntos aleatórios&lt;/p&gt;
&lt;p class="p1"&gt;Discutir alguns simpósios&lt;/p&gt;
&lt;p class="p1"&gt;Inspirações, televisões e por que não canhões?&lt;/p&gt;
&lt;p class="p1"&gt;Falar, falar, falar e nunca ter o que dizer&lt;/p&gt;
&lt;p class="p1"&gt;Sonhar, sonhar, sonhar e nunca ter o que fazer&lt;/p&gt;
&lt;p class="p1"&gt;Tentar, tentar, tentar e, por fim, desistir.&lt;/p&gt;&lt;/p&gt;</description><link>http://thepiemakerwords.tumblr.com/post/23414559839</link><guid>http://thepiemakerwords.tumblr.com/post/23414559839</guid><pubDate>Sun, 20 May 2012 11:46:10 -0300</pubDate></item><item><title>A rotina.</title><description>&lt;p&gt;Colocava o despertador para tocar às 5:30 da manhã, todos os dias, exceto aos domingos. E todos os dias acordava exatamente às 6:22, exatos 42 minutos depois do alarme. Esfregava os olhos, se espreguiçava, bocejava. Ainda meio zonza ia beber água, que se seguia do café da manhã e logo depois o banho, pois sempre acordava com uma fome enorme. Quando o relógio marcava às 7hrs, ela já estava do lado de fora da porta, fechando-a com sua chave, despedindo-se do pequeno Elvis, o gato siamês.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ia de bicicleta para o trabalho, afinal de contas, os tempos eram difíceis para os sonhadores e não era qualquer um que podia ter um carro. Enquanto pedalava, podia observar Dolores, que caminhava com seu marido Otávio, todos os dias, exceto aos domingos. Sorria para eles. Atravessava a mesma rua de sempre, com os mesmos carros, as mesmas pessoas que iam para os mesmos trabalhos, com seus ternos e suas maletas, sempre muito apressados. Parava no mesmo sinal vermelho e sorria para o velho mendigo que dormia sempre na porta de uma oficina, envolto em um papelão. Pensou em um nome para que ele não fosse apenas &amp;#8220;o velho mendigo da oficina&amp;#8221;: Clemêncio. Era magro, de pernas finas e curtas, cabelos longos e desgrenhados, barba rala e grisalha.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao lado esquerdo da rua, logo na esquina do destino da jovem, havia uma construção. Enquanto os trabalhadores chegavam, com suas merendas e capacetes amarelos, ela virava a rua, prendia a bicicleta à um poste que ficava ali perto. Pedia para que os operários observassem o precário - porém ecologicamente correto - meio de transporte. Todos os dias, exceto aos domingos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Trabalhava. Preenchia relatórios, carimbava documentos, fazia contas. Entre às 10:30 e 10:45, ia na cozinha e tomava um café. Depois, trabalhava. Preenchia relatórios, carimbava documentos, fazia contas. Voltava para casa entre às 17:30 e 18:00. No caminho, nada demais: sem Dolores, sem Otávio, sem Clemêncio. Sem sorrisos. Chegava em casa, tomava banho, lia um capítulo de um livro qualquer que estivesse em cima da cama, ia dormir e dava boa noite para Elvis, o gato siamês.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Todos os dias, exceto aos domingos.&lt;/p&gt;</description><link>http://thepiemakerwords.tumblr.com/post/22355797395</link><guid>http://thepiemakerwords.tumblr.com/post/22355797395</guid><pubDate>Thu, 03 May 2012 22:09:00 -0300</pubDate></item><item><title>Certa vez a disseram que era perfeita.</title><description>&lt;p&gt;E então, logo após, completaram que ser “perfeita demais” era um problema.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ela cresceu achando que a perfeição que a perseguia era como sua própria cruz, a angústia interminável de ser tão… Perfeita. Não tinha amigas, pois tudo que era perfeito nela só ressaltava os defeitos das outras meninas. Nunca namorou, pois o perfeito gerava muita responsabilidade na vida de um homem. Todos a diziam: “Você merece coisa melhor” e ninguém se achava estar ao seu alcance, nem sequer tinham coragem de tentar lidar com isso. E seguiu caminhando, carregando a cruz que era ser tão perfeita.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Era bonita, inteligente, culta, adorável com todos, tinha uma boa relação com seus pais, ajudava os necessitados e colocava os outros acima de si mesma - mesmo que não fosse rodeada de tantos “outros” assim. Um conceito muito &lt;em&gt;perfeito&lt;/em&gt;, não concorda? É, todos concordam. Todos se apaixonavam pelo &lt;em&gt;conceito&lt;/em&gt;, mas nunca se interessaram muito em conhecer a &lt;em&gt;pessoa &lt;/em&gt;por trás. Declaravam sua perfeição antes mesmo de se darem ao trabalho de ouvirem mais dela. &lt;em&gt;Dela. &lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Se sentia sozinha, chorava todos os dias antes de dormir, tinha frequentes ataques de pânico que não compartilhava com ninguém, não se achava bonita, sentia intermináveis angústias, não tinha com quem conversar e possuía enorme frustração por não saber desenhar, mesmo amando as artes. Descobriu que o conceito não encontrava problemas externos, não brigava com ninguém nem tinha inúmeras preocupações. A pessoa, no entanto, vivia em constante luta consigo mesma.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não tentou se matar nem ao menos pensou em fazer isso. Ainda tinha amor pela vida, amor no coração. Ainda amava as pessoas - até mesmo aquelas que haviam virado as costas para ela um dia. Quando descobriu que o problema estava nela - e este não era sua perfeição -, abriu um sorriso fraco em meio às lágrimas. Decidiu então que esperaria, afinal de contas, alguém haveria de se interessar pela complexidade que era esse mundo de imperfeições aparentemente perfeitas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;É verdade que a maioria das pessoas, com o tempo, perdiam o interesse, ficavam assustadas, a achavam sem graça: “tudo tão certinho, no lugar. Nenhuma surpresa interessante”. Mas gostava de pensar que elas simplesmente eram muito fracas para lidar com o imprevisível que um dia haveria de se mostrar: sua imperfeição.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Flora ainda espera, sentada. Com as lutas consigo mesma, com os sorrisos fracos em meio às lágrimas e continuando a se frustrar por não saber desenhar, mesmo amando as artes.&lt;/p&gt;</description><link>http://thepiemakerwords.tumblr.com/post/22056525326</link><guid>http://thepiemakerwords.tumblr.com/post/22056525326</guid><pubDate>Sun, 29 Apr 2012 13:47:16 -0300</pubDate></item><item><title>- Gostaria de escrever algo, eu disse.</title><description>&lt;p&gt;“Escrever porque talvez, talvez, eu saiba o que é isso. Escrever para que de alguma forma, possa transformar as coisas que tanto me afligem em simples palavras - e como a simpleza das palavras, transformá-las em algo simples também.”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas nem sempre o que o coração sente é tão simples assim. E por incrível que pareça, meus caros leitores invisíveis, não falo só de amores - apesar de também o estar falando deles. A vida nos atinge, entendem? Atinge de todas as formas, todos os jeitos, todas as direções, todos os sentidos. Poderia ser um vetor, acaso tivesse módulo - com este talvez pudéssemos pressentir a força que nos atinge. Mas nem isso. A vida nos surpreende, certas vezes até com uma vida nova&amp;#8230; Isso não vem ao caso, no entanto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Me viro para a plateia invisível de um teatro empoeirado e grito, grito tudo o que sinto, tudo o que me atinge. E ele me atinge, eles me atingem. Não ouso citar nomes, no entanto; rótulos tiram o teor poético de qualquer coisa. Me atingem porque me preocupo, porque quero-lhes bem, porque tudo o que faço é amá-los. Seria isso o amor? Parafraseando Paulo e respondendo-me à minha própria pergunta, é fato que o amor “tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. Jesus nos amou. A cruz é o exemplo perfeito desse versículo das Escrituras. Essa seria a minha crucificação, então? Amar sem precedentes e sem limites? &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Talvez eu seja fraca. Talvez não suporte a dor que é sentir o mundo inteiro nas minhas costas - quero dizer, não sou Jesus. No entanto, até pensando assim o amor fala mais alto. Porque o amor antes é eterno. Porque viver é amar, e eu vivo. Bem, pelo menos tento. &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;- Doutor, doutor. Tenho um problema: sofro de excesso de amor.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;- Bem, minha querida, pelo que me parece, o quadro realmente é grave. Tenho um remédio, porém, extremamente eficaz para isso.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;- Qual é?&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;em&gt;- Ame.&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;</description><link>http://thepiemakerwords.tumblr.com/post/21850317864</link><guid>http://thepiemakerwords.tumblr.com/post/21850317864</guid><pubDate>Thu, 26 Apr 2012 12:23:00 -0300</pubDate></item><item><title>Sobre um esboço aleatório.</title><description>&lt;p&gt;A história sobre uma menina de 17 anos que entra no elevador do prédio de um amigo, em direção ao andar dele. Quando já dentro do elevador, a porta é rapidamente puxada e um velho de cabelos grandes e grisalhos e uma barba igualmente grande entra no elevador, sorrindo e pedindo desculpas. O homem tem um nariz exuberante e logo abaixo deste, um bigode inteiramente branco, que só não cobre o contorno de sua boca. Seus olhos são bondosos como seu sorriso; ainda assim, tem aparência de louco: os cabelos grandes e completamente desgranhados falam por si só. Veste uma roupa completamente preta, porém social. Os dois trocam um educado “boa noite” e o senhor pede desculpas por invadir o elevador tão bruscamente. A menina, sempre muito polida, sorri e lhe diz que não há problema.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O elevador, então, começa seu trabalho. Indo para o segundo andar, o velho observa com curiosidade o indicador de andares. De repente, pergunta para a moça que está ao seu lado: “faz muito tempo que a senhorita mora aqui?” Surpresa, a menina lhe responde com um simpático sorriso que apenas está indo para casa de um amigo. O velho louco fecha os olhos com força, numa ação de alguém que sabia disso, de alguma forma. Retruca dizendo que mora no prédio há “somente” 14 anos e que nunca a havia visto por ali, por isso perguntara.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como num súbito, o elevador pára e as luzes começam a piscar: estavam presos. Os dois indivíduos ali parados trocaram olhares entre si, sérios. Nas próximas duas horas ambos ficariam presos, juntos. Conversariam sobre variados assuntos e compartilhariam segredos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Padre Pedro e nossa jovem de 17 anos, depois do acontecido, nunca mais se veriam.&lt;/p&gt;</description><link>http://thepiemakerwords.tumblr.com/post/21849416524</link><guid>http://thepiemakerwords.tumblr.com/post/21849416524</guid><pubDate>Thu, 26 Apr 2012 11:56:00 -0300</pubDate></item><item><title>Tomava sorvete todos os dias</title><description>&lt;p&gt;Tomava sorvete todos os dias após o almoço. Via aquela como a sobremesa ideal, quero dizer, não continha glúten (um veneno para aquelas que vivem em dietas intermináveis, como ela) e ainda tinha aspecto gelado - a levar em conta o calor excessivo da cidade onde morava. O melhor de tudo naquela casa em que almoçava todos os dias era que ninguém nunca deixava faltar o bendito sorvete, sempre da mesma marca, sempre do mesmo sabor. E nada de coisas chiques e caras. Não, o sorvete que era devorado todos os dias após o almoço era de uma marca barata e poderia ser encontrado no supermercado da esquina, se este vendesse sorvetes. E todos os dias, após o almoço, subia a escada da grande casa e ia direto na cozinha do andar de cima procurar no congelador aquele pote branco, sempre cheio do sorvete da sua marca favorita, do seu sabor favorito. É fato que, vez ou outra, almoçava já pensando na sobremesa que viria, na calda de morango que cobriria aquela sobremesa gelada, na primeira colherada que viria a sua boca, capaz de cessar todo o calor&amp;#8230; Esses, no entanto, eram apenas detalhes em meio a importância de tomar sorvete todos os dias após o almoço.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas foi numa simples sexta-feira, quando subiu a escada da grande casa e foi direto para a cozinha do andar de cima procurar no congelador aquele pote branco sempre cheio de sorvete, que se deparou com… bem, nada. Não tinha nada ali. Nenhum pote branco, nem sequer um simples pote, apenas as já usuais bandejas de gelo e outras coisas que normalmente são colocadas no congelador.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao se deparar com a falta da sobremesa, ficou maluca. O que faria agora? Que sobremesa comeria? Buscou em todas as estantes do armário de comidas, mas nada tinha. Aquela casa que costumava ser o refúgio das suas dietas, pois possuía os mais variados tipos de doces, não tinha nada agora. Em dado momento, achou um saco com jujubas e chicletes. Comeu um chiclete. Apesar do gosto doce e da falta de glúten, não era a mesma coisa, nunca seria. Se cansou, deprimida. Desistiu.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E foi assim que deixou de tomar sorvete todos os dias após o almoço.&lt;/p&gt;</description><link>http://thepiemakerwords.tumblr.com/post/21849389130</link><guid>http://thepiemakerwords.tumblr.com/post/21849389130</guid><pubDate>Thu, 26 Apr 2012 11:55:00 -0300</pubDate></item><item><title>A verdade, meus caros...</title><description>&lt;p&gt;&lt;span&gt;A verdade é que ela era meio covarde, entendem? Não sabia lidar com dores imensuráveis, corações partidos, vidas acabadas. E por isso evitava. Evitava um olhar, uma visita, um abraço. Evitava para não doer mais no final, para que a única coisa que sentisse fosse a culpa, por ter evitado tanto e não ter aproveitado nada. Nem um olhar, uma visita, um abraço. Nada.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;span&gt;O que restou da ignorância? Livros. Claro, livros que não eram tanto de seu gosto, mas que guardou como fossem seus favoritos. Livros que traziam à memória uma vida que foi desgastada por um tumor do tamanho de uma laranja. Livros que a lembravam da culpa, da ignorância, da saudade.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description><link>http://thepiemakerwords.tumblr.com/post/21849280997</link><guid>http://thepiemakerwords.tumblr.com/post/21849280997</guid><pubDate>Thu, 26 Apr 2012 11:52:21 -0300</pubDate><category>writing</category></item><item><title>Caminhava.</title><description>&lt;p&gt;       Caminhava. Caminhava como quem não sabia de muita coisa - quase nada. Caminhava como quem apenas andava, sem compromissos, afazeres, sem deveres. Caminhava como caminha o livre, o pobre, sempre tão coitado. “Porque quando não temos nada é que temos liberdade para fazer tudo”.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;        Era uma poeta. E como todo poeta que se preze, tinha liberdade dentro de si: liberdade de expressão, vida livre de conceitos, preconceitos, sujeitos, defeitos. E foi pensando nisso que, como num clique, assim, tão de repente, uma imagem veio em sua cabeça. Um casal se beijava na praça ao lado; o cachorro molhado passava, magro, faminto, enfastiado. “Teus beijos que me molham sempre à disposição dos meus…”, pensou. E ficou com isso na cabeça, imagem, frase; quase um livro foi escrito a partir de uma simples frase. Agora só tinha um obstáculo: como se lembrar? Como não esquecer? Onde anotar? Não tinha lugar! E como quem procura por alguém, procurava por um papel, simples, caneta, qualquer coisa: não achou. Ainda faltava um ônibus e uma caminhada até chegar em sua casa e, finalmente poder anotar em algum lugar. Pensou novamente. E o celular? Sem bateria. Estava sozinha, sem ninguém para lhe emprestar um algo qualquer. Talvez pensasse que seria muita pretensão de alguém querer anotar tão loucamente uma simples frase. Mas poetas são assim, sempre querem anotar tudo que lhes vêm à cabeça, mesmo que seja algo medíocre. E tinha certo charme, aquela frase; uma falta de sentido que, ainda assim, lhe dava completo sentido. “Teus beijos que me molham sempre à disposição dos meus…”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;        Enquanto pensava continuava andando, concentrada na frase que acabara de criar. Aceitou o desafio de tê-la em sua cabeça até chegar em casa, pois não perderia essa chance, ainda que fosse uma frase medíocre - o que, acreditava a jovem, não era. “Teus beijos que me molham sempre à disposição dos meus…”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;        Desde então tudo, de alguma forma, tornou-se um filme em fast foward, pois precisava chegar em casa rápido e dessa forma, caminhou mais rápido, como quem sabia de algo - muito. Caminhou como quem tinha compromissos, afazeres, deveres. Caminhou menos livre - porém não menos rápido.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;        Entrou no ônibus. O motorista a observou. Os olhos da moça estavam esbugalhados, quase assustados. Repetia algo, sussurrando. “Teus beijos que me molham sempre à disposição dos meus…” Deu o dinheiro, recebeu o troco. De repente, um freio abrupto. Teus beijos? Quase caiu. Molham quem? Uma senhora, gentilmente, a ajudou. Com um sorriso, os cabelos desgrenhados, ar de quem havia descoberto algo, ela respondeu: Me molham! E se sentou na cadeira do corredor.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;        “Teus beijos que me molham sempre…” Licença? Alguém queria se sentar na cadeira vazia ao lado. À disposição dos meus?, ela disse. Obrigado, sentou-se o homem. E continuava a poeta. “Teus beijos que me molham sempre à disposição dos meus…”&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;        Olhou pela janela, estava chegando. Levantou-se, deu o sinal e esperou parar. Enquanto isso, repetia para si mesma que os teus beijos, que me molham, estão sempre à disposição dos meus. E desceu.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;        Andava rápido, quase correndo. Em seu rosto tinha uma expressão de firmeza, estava tentando concentrar-se em algo. Para um estranho poderia parecer que um camarão estragado havia lhe caído mal. Mas a poeta estava concentrada demais para se importar, ao menos perceber. “Teus beijos que me molham sempre à disposição dos meus…” Tropeçou. TEUS BEIJOS!, gritou. Que me molham sempre à disposição dos meus…, choramingou logo após.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;        Chegou em casa. Não falou com ninguém, correu para seu quarto como alguém que comeu um camarão estragado correria para o banheiro. Revistou por todos os lados, “Teus beijos…”, jogou roupa, “que me molham…”, procurou uma caneta. “Sempre…” Um simples caneta! “Teus beijos que me molham sempre à disposição dos meus…” Achou!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;        Pegou o caderno mais próximo e escreveu, apressada: “Teus beijos que me molham sempre à disposição dos meus…” De repente, a descarga. Um fundo vitorioso, aplausos! Ufa. Teus beijos… Teus beijos…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;       Aquela noite a poeta dormiu como alguém que acabara de sair do banheiro após comer um camarão estragado sairia: livre de conceitos, preconceitos, sujeitos. E sonhou que o cachorro magro e molhado beijava o casal da praça ao lado. &lt;br/&gt; &lt;br/&gt;      Teus beijos que me molham sempre à disposição dos meus…&lt;/p&gt;</description><link>http://thepiemakerwords.tumblr.com/post/21849072224</link><guid>http://thepiemakerwords.tumblr.com/post/21849072224</guid><pubDate>Thu, 26 Apr 2012 11:45:00 -0300</pubDate><category>writing</category></item><item><title>Their meeting.</title><description>&lt;p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;      Uma coisa engraçada sobre coincidências é que elas acontecem quando você menos espera e em dias tão triviais quanto uma segunda-feira. Ou um domingo. Quero dizer, lá está você, fazendo suas obrigações, vivendo sua vidinha normal – ou medíocre, até, se me permite ressaltar – e, de repente, tão rápido como uma tentativa frustrada de matar aquele mosquito irritante, o tão aguardado destino vem de encontro a sua pessoa. Mas o melhor de tudo, é que existe uma singularidade particular em cada dia da semana e é dessa singularidade que as coincidências – ou o destino, se preferir – vivem.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;            9 de Novembro era um dia trivial, tão comum quanto os outros. Ela trabalhava no cafezinho de sempre, ganhando o dinheiro contado para pagar o apartamento. Estudava numa das melhores faculdades do país, mas disso cuidava o pai. Ainda precisava dele. Fazia dois anos que tinha se mudado para aquela grande e maravilhosa cidade, cheia de pessoas desconhecidas e lugares magníficos. Tinha alguns poucos amigos que fazia questão de manter por perto, mas no trabalho, apenas aquela chefe de cabelos cacheados num penteado que parecia ter saído de um seriado dos anos 90. O resto dos colegas estava ali para fazer o mesmo que ela: trabalhar - e reclamar do banheiro dos funcionários, mas isso é outra história.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;            Preparava um capuccino para uma jovem que aparentava estar com o namorado, quando o destino lhe bateu a porta. Ela sorria, até. Até ver aquele rosto inesquecível, marcado em sua mente como brasa. Um rosto tão singular quanto os dias da semana. Conseguiu entregar o pedido para a moça, que a olhou de um jeito engraçado devido a curiosa expressão da garçonete que lhe servia.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;            Era ele, tinha certeza. Os olhos azuis e brilhantes, o sorriso torto com os dentes perfeitos - exceto por aquela minúscula separação entre os dois da frente. O charme. A barba, do mesmo jeito que estava há quatro anos antes: por fazer. Pela primeira vez o vira sem o gorro, os cabelos, para sua surpresa, eram bagunçados e pareciam não ter sido arrumados há um tempo - o que só aumentava o já mencionado charme. Pôde ver também um pouco mais de sua pele branca, pois já não usava os dois casacos e, agora, bastava apenas um, o frio já não era tanto.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;            De repente, aquela quinta feira tinha deixado de ser apenas “o dia anterior à sexta”; de repente, a vida fez um pouco mais de sentido. Se perguntou se não era um presente de aniversário Divino,  já que ela estava a apenas 16 dias de completar 20 anos. Ironicamente, era essa a idade que ele tinha quando eles se viram pela primeira vez. Ela estava com 16. Coincidência? Não, esse tipo de coisa já está bem além do limite de coincidência. Quero dizer, qual é a real probabilidade disso acontecer? 6 bilhões de habitantes no mundo, milhões de quilômetros entre um país e outro, milhares de lanchonetes como aquela na cidade. E ele veio parar justamente no pequeno café em que a nossa protagonista trabalha.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;            Acordou de seus devaneios assim que uma colega a avisou que estava parada no mesmo lugar há 10 minutos e que isso estava começando a assustar os clientes. Disse também que o senhor da mesa X pediu um café normal. Não, “o senhor da mesa X” não era nosso mocinho, era apenas um velho barbudo com um caderno na mesa e uma caneta na mão, riscando e refazendo a mesma frase inúmeras vezes. Um escritor fracassado, provavelmente. Teve a certeza da dedução ao entregar o café para o senhor e ler a última frase, que ainda não estava rabiscada: &lt;em&gt;“Os dias fracassados de hoje são a conquista do amanhã.”&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;            Ela não sabia o que iria fazer a seguir. Ela não sabia se seria certo falar com ele. Ela não sabia nem o que perguntaria à ele! Talvez fosse sua própria culpa, quero dizer, havia perdido as contas de quantas vezes imaginou esse momento, esse tão esperado momento. Infelizmente, nunca foi muito além do encontro em si. Nunca pensou no que falaria, com que assunto introduziria a conversa. O que se diz para alguém que você encontrou duas vezes numa cidade metropolitana do exterior e agora, depois de quatro anos, estava ali, há apenas dois metros de distância, aproveitando o quiche de frango com um café com leite?&lt;em&gt;“Mais açúcar?”&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;            As pessoas falam para agirmos normais quando esse tipo de coisa acontece, certo? Se é que esse tipo de coisa acontece. Então, acredito que não haja frase mais normal do que “mais açúcar?”, ainda mais quando se trata de um café. Mas não seria tão normal assim se a garçonete aqui narrada já soubesse que havia um pote de açúcar na mesa do mocinho - pois teria sido a própria a botar o pote na bandeja de sua colega -  e que ele, na verdade, não precisava de açúcar nenhum. Poderia também dizer a mesma coisa que ele disse quando se viram pela segunda vez: “Eu estou te reconhecendo!”, ele gritava, “É a menina do metrô!”. Se bem que isso ficaria um pouco antiquado, afinal, já havia sido usado quatro anos antes. Mas…&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;            O que ela realmente queria? Apenas parar o tempo e o observar mais um pouco, talvez formular diálogos entre os dois em sua cabeça, viver mais da expectativa. Não queria se decepcionar, pois ela sabia que os romances eram muito mais bonitos em literatura e as pessoas, muito mais formidáveis na imaginação. Ela só não sabia até que ponto queria viver dessa fantasia. Se queria continuar vivendo da fantasia. Talvez fosse um pouco covarde.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;            Por fim, se lembrou do que havia prometido a si mesma no encontro anterior àquele. Disse que se arriscaria em cada chance que lhe fosse dada. E daí que ele acabasse por ser tão normal quanto um pedaço de batata? Depois de todas essas resoluções sobre destino, coincidências e probabilidades, devia haver um motivo pelo qual ele estava ali. Tudo o que sabia era que não iria deixar aquela chance passar.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;            E foi andando, com o coração batendo mais forte a cada passo, em direção à mesa dele. “Isso pode mudar minha vida”, pensou. Ele estava de costas para ela, portanto, não conseguia ver sua expressão, não conseguia sequer vê-la. Cutucou seu ombro esquerdo e esperou até que ele se virasse.&lt;/p&gt;
&lt;p class="MsoNormal"&gt;            “Oi. Você se lembra de mim?” foi o que ela, enfim, disse, com um sorriso envergonhado. E viu, naqueles olhos azuis e brilhantes, um misto de perplexidade e alegria. Um sorriso se abriu.&lt;/p&gt;&lt;/p&gt;</description><link>http://thepiemakerwords.tumblr.com/post/21849014165</link><guid>http://thepiemakerwords.tumblr.com/post/21849014165</guid><pubDate>Thu, 26 Apr 2012 11:43:58 -0300</pubDate><category>writing</category></item></channel></rss>
