A rotina.

Colocava o despertador para tocar às 5:30 da manhã, todos os dias, exceto aos domingos. E todos os dias acordava exatamente às 6:22, exatos 42 minutos depois do alarme. Esfregava os olhos, se espreguiçava, bocejava. Ainda meio zonza ia beber água, que se seguia do café da manhã e logo depois o banho, pois sempre acordava com uma fome enorme. Quando o relógio marcava às 7hrs, ela já estava do lado de fora da porta, fechando-a com sua chave, despedindo-se do pequeno Elvis, o gato siamês.

Ia de bicicleta para o trabalho, afinal de contas, os tempos eram difíceis para os sonhadores e não era qualquer um que podia ter um carro. Enquanto pedalava, podia observar Dolores, que caminhava com seu marido Otávio, todos os dias, exceto aos domingos. Sorria para eles. Atravessava a mesma rua de sempre, com os mesmos carros, as mesmas pessoas que iam para os mesmos trabalhos, com seus ternos e suas maletas, sempre muito apressados. Parava no mesmo sinal vermelho e sorria para o velho mendigo que dormia sempre na porta de uma oficina, envolto em um papelão. Pensou em um nome para que ele não fosse apenas “o velho mendigo da oficina”: Clemêncio. Era magro, de pernas finas e curtas, cabelos longos e desgrenhados, barba rala e grisalha.

Ao lado esquerdo da rua, logo na esquina do destino da jovem, havia uma construção. Enquanto os trabalhadores chegavam, com suas merendas e capacetes amarelos, ela virava a rua, prendia a bicicleta à um poste que ficava ali perto. Pedia para que os operários observassem o precário - porém ecologicamente correto - meio de transporte. Todos os dias, exceto aos domingos.

Trabalhava. Preenchia relatórios, carimbava documentos, fazia contas. Entre às 10:30 e 10:45, ia na cozinha e tomava um café. Depois, trabalhava. Preenchia relatórios, carimbava documentos, fazia contas. Voltava para casa entre às 17:30 e 18:00. No caminho, nada demais: sem Dolores, sem Otávio, sem Clemêncio. Sem sorrisos. Chegava em casa, tomava banho, lia um capítulo de um livro qualquer que estivesse em cima da cama, ia dormir e dava boa noite para Elvis, o gato siamês.

Todos os dias, exceto aos domingos.