Caminhava.

       Caminhava. Caminhava como quem não sabia de muita coisa - quase nada. Caminhava como quem apenas andava, sem compromissos, afazeres, sem deveres. Caminhava como caminha o livre, o pobre, sempre tão coitado. “Porque quando não temos nada é que temos liberdade para fazer tudo”.

        Era uma poeta. E como todo poeta que se preze, tinha liberdade dentro de si: liberdade de expressão, vida livre de conceitos, preconceitos, sujeitos, defeitos. E foi pensando nisso que, como num clique, assim, tão de repente, uma imagem veio em sua cabeça. Um casal se beijava na praça ao lado; o cachorro molhado passava, magro, faminto, enfastiado. “Teus beijos que me molham sempre à disposição dos meus…”, pensou. E ficou com isso na cabeça, imagem, frase; quase um livro foi escrito a partir de uma simples frase. Agora só tinha um obstáculo: como se lembrar? Como não esquecer? Onde anotar? Não tinha lugar! E como quem procura por alguém, procurava por um papel, simples, caneta, qualquer coisa: não achou. Ainda faltava um ônibus e uma caminhada até chegar em sua casa e, finalmente poder anotar em algum lugar. Pensou novamente. E o celular? Sem bateria. Estava sozinha, sem ninguém para lhe emprestar um algo qualquer. Talvez pensasse que seria muita pretensão de alguém querer anotar tão loucamente uma simples frase. Mas poetas são assim, sempre querem anotar tudo que lhes vêm à cabeça, mesmo que seja algo medíocre. E tinha certo charme, aquela frase; uma falta de sentido que, ainda assim, lhe dava completo sentido. “Teus beijos que me molham sempre à disposição dos meus…”

        Enquanto pensava continuava andando, concentrada na frase que acabara de criar. Aceitou o desafio de tê-la em sua cabeça até chegar em casa, pois não perderia essa chance, ainda que fosse uma frase medíocre - o que, acreditava a jovem, não era. “Teus beijos que me molham sempre à disposição dos meus…”

        Desde então tudo, de alguma forma, tornou-se um filme em fast foward, pois precisava chegar em casa rápido e dessa forma, caminhou mais rápido, como quem sabia de algo - muito. Caminhou como quem tinha compromissos, afazeres, deveres. Caminhou menos livre - porém não menos rápido.

        Entrou no ônibus. O motorista a observou. Os olhos da moça estavam esbugalhados, quase assustados. Repetia algo, sussurrando. “Teus beijos que me molham sempre à disposição dos meus…” Deu o dinheiro, recebeu o troco. De repente, um freio abrupto. Teus beijos? Quase caiu. Molham quem? Uma senhora, gentilmente, a ajudou. Com um sorriso, os cabelos desgrenhados, ar de quem havia descoberto algo, ela respondeu: Me molham! E se sentou na cadeira do corredor.

        “Teus beijos que me molham sempre…” Licença? Alguém queria se sentar na cadeira vazia ao lado. À disposição dos meus?, ela disse. Obrigado, sentou-se o homem. E continuava a poeta. “Teus beijos que me molham sempre à disposição dos meus…”

        Olhou pela janela, estava chegando. Levantou-se, deu o sinal e esperou parar. Enquanto isso, repetia para si mesma que os teus beijos, que me molham, estão sempre à disposição dos meus. E desceu.

        Andava rápido, quase correndo. Em seu rosto tinha uma expressão de firmeza, estava tentando concentrar-se em algo. Para um estranho poderia parecer que um camarão estragado havia lhe caído mal. Mas a poeta estava concentrada demais para se importar, ao menos perceber. “Teus beijos que me molham sempre à disposição dos meus…” Tropeçou. TEUS BEIJOS!, gritou. Que me molham sempre à disposição dos meus…, choramingou logo após.

        Chegou em casa. Não falou com ninguém, correu para seu quarto como alguém que comeu um camarão estragado correria para o banheiro. Revistou por todos os lados, “Teus beijos…”, jogou roupa, “que me molham…”, procurou uma caneta. “Sempre…” Um simples caneta! “Teus beijos que me molham sempre à disposição dos meus…” Achou!

        Pegou o caderno mais próximo e escreveu, apressada: “Teus beijos que me molham sempre à disposição dos meus…” De repente, a descarga. Um fundo vitorioso, aplausos! Ufa. Teus beijos… Teus beijos…

       Aquela noite a poeta dormiu como alguém que acabara de sair do banheiro após comer um camarão estragado sairia: livre de conceitos, preconceitos, sujeitos. E sonhou que o cachorro magro e molhado beijava o casal da praça ao lado. 
 
      Teus beijos que me molham sempre à disposição dos meus…