Their meeting.
Uma coisa engraçada sobre coincidências é que elas acontecem quando você menos espera e em dias tão triviais quanto uma segunda-feira. Ou um domingo. Quero dizer, lá está você, fazendo suas obrigações, vivendo sua vidinha normal – ou medíocre, até, se me permite ressaltar – e, de repente, tão rápido como uma tentativa frustrada de matar aquele mosquito irritante, o tão aguardado destino vem de encontro a sua pessoa. Mas o melhor de tudo, é que existe uma singularidade particular em cada dia da semana e é dessa singularidade que as coincidências – ou o destino, se preferir – vivem.
9 de Novembro era um dia trivial, tão comum quanto os outros. Ela trabalhava no cafezinho de sempre, ganhando o dinheiro contado para pagar o apartamento. Estudava numa das melhores faculdades do país, mas disso cuidava o pai. Ainda precisava dele. Fazia dois anos que tinha se mudado para aquela grande e maravilhosa cidade, cheia de pessoas desconhecidas e lugares magníficos. Tinha alguns poucos amigos que fazia questão de manter por perto, mas no trabalho, apenas aquela chefe de cabelos cacheados num penteado que parecia ter saído de um seriado dos anos 90. O resto dos colegas estava ali para fazer o mesmo que ela: trabalhar - e reclamar do banheiro dos funcionários, mas isso é outra história.
Preparava um capuccino para uma jovem que aparentava estar com o namorado, quando o destino lhe bateu a porta. Ela sorria, até. Até ver aquele rosto inesquecível, marcado em sua mente como brasa. Um rosto tão singular quanto os dias da semana. Conseguiu entregar o pedido para a moça, que a olhou de um jeito engraçado devido a curiosa expressão da garçonete que lhe servia.
Era ele, tinha certeza. Os olhos azuis e brilhantes, o sorriso torto com os dentes perfeitos - exceto por aquela minúscula separação entre os dois da frente. O charme. A barba, do mesmo jeito que estava há quatro anos antes: por fazer. Pela primeira vez o vira sem o gorro, os cabelos, para sua surpresa, eram bagunçados e pareciam não ter sido arrumados há um tempo - o que só aumentava o já mencionado charme. Pôde ver também um pouco mais de sua pele branca, pois já não usava os dois casacos e, agora, bastava apenas um, o frio já não era tanto.
De repente, aquela quinta feira tinha deixado de ser apenas “o dia anterior à sexta”; de repente, a vida fez um pouco mais de sentido. Se perguntou se não era um presente de aniversário Divino, já que ela estava a apenas 16 dias de completar 20 anos. Ironicamente, era essa a idade que ele tinha quando eles se viram pela primeira vez. Ela estava com 16. Coincidência? Não, esse tipo de coisa já está bem além do limite de coincidência. Quero dizer, qual é a real probabilidade disso acontecer? 6 bilhões de habitantes no mundo, milhões de quilômetros entre um país e outro, milhares de lanchonetes como aquela na cidade. E ele veio parar justamente no pequeno café em que a nossa protagonista trabalha.
Acordou de seus devaneios assim que uma colega a avisou que estava parada no mesmo lugar há 10 minutos e que isso estava começando a assustar os clientes. Disse também que o senhor da mesa X pediu um café normal. Não, “o senhor da mesa X” não era nosso mocinho, era apenas um velho barbudo com um caderno na mesa e uma caneta na mão, riscando e refazendo a mesma frase inúmeras vezes. Um escritor fracassado, provavelmente. Teve a certeza da dedução ao entregar o café para o senhor e ler a última frase, que ainda não estava rabiscada: “Os dias fracassados de hoje são a conquista do amanhã.”
Ela não sabia o que iria fazer a seguir. Ela não sabia se seria certo falar com ele. Ela não sabia nem o que perguntaria à ele! Talvez fosse sua própria culpa, quero dizer, havia perdido as contas de quantas vezes imaginou esse momento, esse tão esperado momento. Infelizmente, nunca foi muito além do encontro em si. Nunca pensou no que falaria, com que assunto introduziria a conversa. O que se diz para alguém que você encontrou duas vezes numa cidade metropolitana do exterior e agora, depois de quatro anos, estava ali, há apenas dois metros de distância, aproveitando o quiche de frango com um café com leite?“Mais açúcar?”
As pessoas falam para agirmos normais quando esse tipo de coisa acontece, certo? Se é que esse tipo de coisa acontece. Então, acredito que não haja frase mais normal do que “mais açúcar?”, ainda mais quando se trata de um café. Mas não seria tão normal assim se a garçonete aqui narrada já soubesse que havia um pote de açúcar na mesa do mocinho - pois teria sido a própria a botar o pote na bandeja de sua colega - e que ele, na verdade, não precisava de açúcar nenhum. Poderia também dizer a mesma coisa que ele disse quando se viram pela segunda vez: “Eu estou te reconhecendo!”, ele gritava, “É a menina do metrô!”. Se bem que isso ficaria um pouco antiquado, afinal, já havia sido usado quatro anos antes. Mas…
O que ela realmente queria? Apenas parar o tempo e o observar mais um pouco, talvez formular diálogos entre os dois em sua cabeça, viver mais da expectativa. Não queria se decepcionar, pois ela sabia que os romances eram muito mais bonitos em literatura e as pessoas, muito mais formidáveis na imaginação. Ela só não sabia até que ponto queria viver dessa fantasia. Se queria continuar vivendo da fantasia. Talvez fosse um pouco covarde.
Por fim, se lembrou do que havia prometido a si mesma no encontro anterior àquele. Disse que se arriscaria em cada chance que lhe fosse dada. E daí que ele acabasse por ser tão normal quanto um pedaço de batata? Depois de todas essas resoluções sobre destino, coincidências e probabilidades, devia haver um motivo pelo qual ele estava ali. Tudo o que sabia era que não iria deixar aquela chance passar.
E foi andando, com o coração batendo mais forte a cada passo, em direção à mesa dele. “Isso pode mudar minha vida”, pensou. Ele estava de costas para ela, portanto, não conseguia ver sua expressão, não conseguia sequer vê-la. Cutucou seu ombro esquerdo e esperou até que ele se virasse.
“Oi. Você se lembra de mim?” foi o que ela, enfim, disse, com um sorriso envergonhado. E viu, naqueles olhos azuis e brilhantes, um misto de perplexidade e alegria. Um sorriso se abriu.